“De Que São Feitos os Dias? De que são feitos os dias?- De pequenos desejos,vagarosas saudades,silenciosas lembranças.Entre mágoas sombrias,momentâneos lampejos:vagas felicidades,inactuais esperanças.De loucuras, de crimes,de pecados, de glórias- do medo que encadeiatodas essas mudanças.Dentro deles vivemos,dentro deles choramos,em duros desenlacese em sinistras alianças...”
“Renova-te.Renasce em ti mesmo.Multiplica os teus olhos, para verem mais.Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.Destrói os olhos que tiverem visto.Cria outros, para as visões novas.Destrói os braços que tiverem semeado,Para se esquecerem de colher.Sê sempre o mesmo.Sempre outro. Mas sempre alto.Sempre longe.E dentro de tudo.”
“Criança Cabecinha boa de menino triste,de menino triste que sofre sozinho,que sozinho sofre, — e resiste,Cabecinha boa de menino ausente,que de sofrer tanto se fez pensativo,e não sabe mais o que sente...Cabecinha boa de menino mudoque não teve nada, que não pediu nada,pelo medo de perder tudo.Cabecinha boa de menino santoque do alto se inclina sobre a água do mundopara mirar seu desencanto.Para ver passar numa onda lenta e friaa estrela perdida da felicidadeque soube que não possuiria.”
“Inscrição Quem se deleita em tornar minha vida impossívelpor todos os lados?Certamente estás rindo de longe,ó encoberto adversário!Mas a minha paciência é mais firmeque todas as sanhas da sorte:mais longa que a vida, mais claraque a luz no horizonte.Passeio no gume de estradas tão gravesque afligem o próprio inimigo.A mim, que me importam espécies de instantes,se existo infinita?”
“Como se Morre de Velhice Como se morre de velhiceou de acidente ou de doença,morro, Senhor, de indiferença.Da indiferença deste mundoonde o que se sente e se pensanão tem eco, na ausência imensa.Na ausência, areia movediçaonde se escreve igual sentençapara o que é vencido e o que vença.Salva-me, Senhor, do horizontesem estímulo ou recompensaonde o amor equivale à ofensa.De boca amarga e de alma tristesinto a minha própria presençanum céu de loucura suspensa.(Já não se morre de velhicenem de acidente nem de doença,mas, Senhor, só de indiferença.)”
“Retrato de Mulher Triste Vestiu-se para um baile que não há.Sentou-se com suas últimas jóias.E olha para o lado, imóvel.Está vendo os salões que se acabaram,embala-se em valsas que não dançou,levemente sorri para um homem.O homem que não existiu.Se alguém lhe disser que sonha,levantará com desdém o arco das sobrancelhas,Pois jamais se viveu com tanta plenitude.Mas para falar de sua vidatem de abaixar as quase infantis pestanas,e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.”
“A água da minha memória devora todos os reflexos. Desfizeram-se, por isso, todas as minhas presençase sempre se continuarão a desfazer. É inútil o meu esforço de conservar-me; todos os dias sou meu completo desmoronamento”