“Toda vez que um justo grita, um carrasco vem calar. Quem não presta fica vivo, quem é bom, mandam matar”
“Onde é que dói na minha vida,para que eu me sinta tão mal?quem foi que me deixou feridade ferimento tão mortal?Eu parei diante da paisagem:e levava uma flor na mão.Eu parei diante da paisagemprocurando um nome de imagempara dar à minha canção.Nunca existiu sonho tão purocomo o da minha timidez.Nunca existiu sonho tão puro,nem também destino tão durocomo o que para mim se fez.Estou caída num vale aberto,entre serras que não têm fim.Estou caída num vale aberto:nunca ninguém passará perto,nem terá notícias de mim.Eu sinto que não tarda a morte,e só há por mim esta flor;eu sinto que não tarda a mortee não sei como é que suportetanta solidão sem pavor.E sofro mais ouvindo um rioque ao longe canta pelo chão,que deve ser límpido e frio,mas sem dó nem recordação,como a voz cujo murmúriomorrerá com o meu coração...”
“Inscrição Quem se deleita em tornar minha vida impossívelpor todos os lados?Certamente estás rindo de longe,ó encoberto adversário!Mas a minha paciência é mais firmeque todas as sanhas da sorte:mais longa que a vida, mais claraque a luz no horizonte.Passeio no gume de estradas tão gravesque afligem o próprio inimigo.A mim, que me importam espécies de instantes,se existo infinita?”
“Retrato de Mulher Triste Vestiu-se para um baile que não há.Sentou-se com suas últimas jóias.E olha para o lado, imóvel.Está vendo os salões que se acabaram,embala-se em valsas que não dançou,levemente sorri para um homem.O homem que não existiu.Se alguém lhe disser que sonha,levantará com desdém o arco das sobrancelhas,Pois jamais se viveu com tanta plenitude.Mas para falar de sua vidatem de abaixar as quase infantis pestanas,e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.”
“Cântico IINão sejas o de hoje.Não suspires por ontens...não queiras ser o de amanhã.Faze-te sem limites no tempo.Vê a tua vida em todas as origens.Em todas as existências.Em todas as mortes.E sabes que serás assim para sempre.Não queiras marcar a tua passagem.Ela prossegue:É a passagem que se continua.É a tua eternidade.És tu”
“Cântico VITu tens um medo:Acabar.Não vês que acaba todo o dia.Que morres no amor.Na tristeza.Na dúvida.No desejo.Que te renovas todo o dia.No amor.Na tristeza.Na dúvida.No desejo.Que és sempre outro.Que és sempre o mesmo.Que morrerás por idades imensas.Até não teres medo de morrer.E então serás eterno.”
“Liberdade: essa palavra que o sonho humano alimenta:que não há ninguém que explique,e ninguém que não entenda!”